Filipe Sabará é dono de 5 empresas — uma delas vale R$ 20 milhões

Cinco empresas, cinco CNPJs, cinco setores que não têm quase nada em comum entre si — saúde, comércio, mídia digital, biotecnologia e educação. É essa a composição pouco óbvia do patrimônio declarado à Justiça Eleitoral por Filipe Sabará, candidato a deputado estadual por São Paulo em 2026 pelo PL, sob o número 22255. E, apesar da diversidade de ramos, quase 69% de tudo o que ele tem está concentrado em uma única dessas empresas.

Dono de 5 empresas, uma vale quase 70% Composição dos R$ 29,1 milhões declarados ao TSE 68,7% 10,3% Permavita (100%) Renda fixa BTG ERA Comércio (50%) Outras 3 empresas Fonte: declaração de bens ao TSE (DivulgaCandContas) · Elaboração: Finanças para você

Segundo o registro de candidatura, Sabará declarou um patrimônio total de R$ 29.109.200,00, dividido em nove bens. Desse total, seis itens são participações societárias — ele é dono de 100% das quotas em quatro empresas diferentes e sócio de metade de uma quinta —, e os outros três são aplicações financeiras de valores bem mais modestos. Antes de entender onde está o dinheiro, vale conhecer quem é o candidato.

Quem é Filipe Sabará

Filipe Sabará nasceu em São Paulo (SP) em 16 de agosto de 1983. É herdeiro do Grupo Sabará, empresa do setor químico voltada à fabricação de cosméticos, e estudou marketing na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

Sua trajetória na vida pública começou na gestão do então prefeito João Doria, quando ocupou, em 2017, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo. No mesmo período, presidiu o Fundo Social de Solidariedade do município. Ele também é fundador da ONG Arcah, voltada ao acolhimento de pessoas em situação de rua.

Em 2020, foi pré-candidato à Prefeitura de São Paulo pelo partido Novo, mas deixou a disputa e rompeu com a legenda após uma série de desentendimentos internos, incluindo questionamentos sobre informações do seu currículo. Mais adiante, integrou a gestão do governador Tarcísio de Freitas como secretário executivo de Desenvolvimento Social e presidente do Fundo Social do Estado, cargo do qual saiu em fevereiro de 2024. Depois disso, atuou na coordenação do plano de governo de Pablo Marçal na campanha à Prefeitura de São Paulo em 2024. Agora, disputa uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo pelo PL.

Onde estão os R$ 29,1 milhões

A declaração de bens entregue ao TSE detalha nove itens. Veja a lista completa, do maior para o menor:

BemDescriçãoValor declarado% do patrimônio
1Quotas na Permavita (CNPJ 41.493.052/0001-24) — 100% das quotasR$ 20.000.000,0068,71%
2Aplicações financeiras BTG — renda fixaR$ 3.000.000,0010,31%
3Quotas na ERA Comércio (CNPJ 24.955.190/0001-69) — 50% das quotasR$ 2.500.000,008,59%
4Quotas na Bom Senso Mídia Digital Ltda (CNPJ 63.353.407/0001-12) — 100% das quotasR$ 1.600.000,005,50%
5Quotas na Bioekonomica (CNPJ 41.492.139/0001-87) — 100% das quotasR$ 1.000.000,003,44%
6Quotas na Unipoli Cursos e Treinamentos Ltda (CNPJ 63.394.260/0001-09) — 100% das quotasR$ 1.000.000,003,44%
7Aplicações financeiras BTG — renda fixa (segunda linha)R$ 7.200,000,02%
8Aplicações financeiras XPR$ 1.100,00menos de 0,01%
9Aplicações financeiras ItaúR$ 900,00menos de 0,01%

1. Liquidez

Liquidez é a facilidade — e a velocidade — com que um bem pode ser transformado em dinheiro sem perder valor no processo. No patrimônio de Sabará, os R$ 7.200,00 em aplicações BTG, os R$ 1.100,00 na XP e os R$ 900,00 no Itaú são, de longe, os itens mais líquidos: costumam poder ser resgatados em poucos dias, às vezes em horas, com pouca ou nenhuma perda. Já os R$ 3.000.000,00 em renda fixa no BTG dependem do prazo e das condições de cada aplicação — algumas têm liquidez diária, outras só vencem em data futura, com possível perda se resgatadas antes do prazo. O grande contraste fica por conta dos mais de R$ 26 milhões em quotas de empresas: vender uma participação societária não é como sacar de uma conta ou vender uma ação na bolsa. É preciso encontrar um comprador disposto a pagar o valor justo, negociar contrato, muitas vezes auditar a empresa (devido diligência) e formalizar a transferência em cartório e na Junta Comercial. Esse processo pode levar meses.

2. Precificação

Esse é talvez o ponto mais importante para quem só tem contato com investimentos do dia a dia. Uma ação de empresa listada na bolsa tem preço público, atualizado a cada segundo, formado pela oferta e demanda de milhares de investidores. As quotas da Permavita, da ERA Comércio, da Bom Senso Mídia Digital, da Bioekonomica e da Unipoli não têm nada disso: são empresas de capital fechado, e o valor declarado ao TSE normalmente reflete o critério de custo de aquisição ou o valor patrimonial contábil — não uma cotação de mercado atualizada diariamente. Na prática, isso significa que os R$ 20 milhões atribuídos à Permavita podem estar bem próximos do que a empresa realmente vale hoje, ou podem estar defasados, para cima ou para baixo, dependendo de como o negócio evoluiu desde a última avaliação. Diferente de uma ação, não existe um “preço de fechamento” diário para conferir.

3. Concentração

Concentração é o quanto o patrimônio depende do desempenho de um único ativo. Neste caso, o grau de concentração é alto: uma única empresa, a Permavita, responde por 68,71% de tudo o que foi declarado. Somando as duas maiores posições — Permavita e as aplicações BTG de R$ 3 milhões —, chega-se a quase 79% do patrimônio total. Isso quer dizer que o resultado financeiro de Sabará está fortemente atrelado ao desempenho de uma única empresa do setor de saúde/healthtech. Para efeito de comparação educacional: um investidor pessoa física que colocasse 69% de suas economias em um único ativo — mesmo que fosse uma ação “segura” — estaria assumindo um risco de concentração considerado elevado pela maioria dos consultores financeiros, que costumam recomendar diversificação entre diferentes classes de ativos e emissores.

O que esse caso ensina para quem não tem milhões

Não é preciso ter R$ 29 milhões para aprender com essa declaração. O primeiro ponto é sobre concentração: assim como Sabará tem quase 70% do patrimônio em uma única empresa, muita gente comum concentra as economias em um único investimento — geralmente a poupança — sem comparar alternativas. Entender a diferença entre renda fixa e renda variável é o primeiro passo para decidir onde alocar o dinheiro com mais consciência.

O segundo ponto é sobre liquidez. Ter patrimônio “no papel” não é o mesmo que ter dinheiro disponível para uma emergência. É por isso que todo planejamento financeiro sério recomenda manter uma reserva de emergência em aplicações de alta liquidez — o equivalente, guardadas as proporções, aos R$ 7.200,00 em renda fixa de resgate rápido que aparecem na declaração do candidato, e não aos R$ 20 milhões travados em quotas de empresa.

Por fim, vale lembrar que organizar as próprias finanças começa com um exercício simples: listar tudo o que se tem, exatamente como uma declaração de bens faz, e entender o que é líquido, o que rende e o que está exposto a risco. Ferramentas básicas de planejamento financeiro pessoal ajudam nesse diagnóstico, assim como comparar opções mais simples de renda fixa — por exemplo, entender a diferença entre Tesouro Direto e CDB antes de escolher onde deixar uma reserva.

Como consultar (DivulgaCandContas)

Qualquer eleitor pode conferir a declaração de bens de qualquer candidato, de graça e sem cadastro, diretamente no sistema do TSE. O passo a passo é simples:

  1. Acesse o site divulgacandcontas.tse.jus.br.
  2. Selecione o ano da eleição (2026) e a unidade federativa (São Paulo).
  3. Escolha o cargo (deputado estadual) e localize o nome ou número do candidato — no caso, Filipe Sabará, número 22255.
  4. Abra a página do candidato e clique na aba de “Bens declarados” ou similar.
  5. A lista completa aparece com descrição, valor e o partido/coligação, exatamente como enviada à Justiça Eleitoral.

É o mesmo caminho usado para checar a declaração de qualquer outro nome na disputa — vale o hábito para qualquer candidato do seu interesse, não só para este.

Perguntas frequentes

O valor declarado é o valor de mercado das empresas hoje?
Não necessariamente. Declarações de bens ao TSE costumam seguir o critério de custo de aquisição ou valor contábil, que pode estar defasado em relação ao valor de mercado atual, principalmente em empresas de capital fechado, como é o caso das participações de Sabará.

Ter uma empresa avaliada em R$ 20 milhões significa ter R$ 20 milhões disponíveis?
Não. É patrimônio, não dinheiro em caixa. Para transformar essa participação em dinheiro seria necessário vender a empresa (ou parte dela) para um comprador, processo que costuma levar meses e depende de haver interessados dispostos a pagar aquele valor.

Por que ele é sócio de apenas 50% da ERA Comércio, e não de 100% como nas outras?
A declaração de bens ao TSE não detalha o motivo da distribuição societária, apenas registra a fração das quotas pertencente ao candidato — nesse caso, metade da empresa está declarada em nome de Filipe Sabará.

Esse tipo de concentração patrimonial é comum entre candidatos?
Varia bastante de candidato para candidato. Empresários costumam ter parcela relevante do patrimônio concentrada no próprio negócio, o que é diferente do perfil de quem investe majoritariamente em aplicações financeiras diversificadas.

Essa matéria diz se o candidato deve ou não receber o voto de alguém?
Não. O objetivo é exclusivamente explicar, do ponto de vista financeiro e educacional, como está organizado o patrimônio declarado — não fazer juízo político sobre o candidato ou sua candidatura.

Leia também

Esta é uma reportagem jornalística e educativa, não uma recomendação de voto nem de investimento. Todos os dados citados são públicos, extraídos da declaração de bens de candidatos disponível no sistema DivulgaCandContas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e os valores são apresentados pelo critério de aquisição informado pelo próprio candidato, que pode não refletir o valor de mercado atual dos bens.

Deixe um comentário